O Banco Inter apresentou aos investidores uma nova métrica estratégica — a “Regra dos 50” — que combina expansão anual de receita superior a 30% com avanço consistente de rentabilidade até que a soma dos dois indicadores alcance 50% em 2029, inaugurando uma fase de maior disciplina financeira após anos focado prioritariamente em escala.
Do plano 60-30-30 à “Regra dos 50”: escalonamento de metas
Desde 2021, o Inter pautava suas ambições de longo prazo pelo plano 60-30-30, que previa 60 milhões de clientes, índice de eficiência de 30% e retorno sobre patrimônio líquido (ROE) de 30% até 2027. A administração, liderada por João Vitor Menin, mantém esses objetivos, mas adiciona agora uma métrica inspirada na Rule of 40 usada por empresas de tecnologia, elevando a exigência para 50%.
Na prática, a instituição precisa:
- Preservar um crescimento de receita acima de 30% ao ano;
- Elevar o ROE gradualmente até que, juntos, os dois números somem 50% em 2029.
A meta passa a ser o novo balizador da estratégia para os próximos três anos e meio, período em que a diretoria promete provar que um banco 100% digital pode combinar escala com rentabilidade “comparável à dos grandes bancos”, segundo o CEO.
Alavancas operacionais para sustentar o novo patamar
Para financiar o crescimento rentável, o Inter elenca três vetores principais:
- Baixo custo de captação – A ampla base de contas digitais mantém o custo médio de funding abaixo da média do sistema financeiro.
- Eficiência – O banco pretende reduzir o índice de eficiência de 44% para 30% até 2027, apoiado em tecnologia e alavancagem operacional. A instituição opera hoje “com praticamente o mesmo quadro de funcionários de quando possuía metade da receita”, segundo o CFO Santiago Stel.
- Alavancagem financeira – A relação crédito/patrimônio está em 9,6x; a administração quer se aproximar de 11x, mais alinhada ao padrão de mercado entre 12x e 13x.
Em paralelo, há um redirecionamento de capital que antes permanecia em tesouraria para linhas de crédito de maior retorno, elevando o yield marginal da carteira de 12% para 22%.
Concentração em crédito com garantia e maior penetração na base
A partir de 2026, o Inter passou a priorizar produtos com lastro, tradicionalmente dominados por bancos incumbentes. Entre eles:
- Consignado privado;
- Crédito com FGTS;
- Financiamento imobiliário.
Essas linhas oferecem retorno mais previsível e risco controlado em um mercado de crédito que movimenta cerca de R$ 6 tri, dos quais bancos tradicionais ainda detêm mais de 80%. O plano prevê dobrar o market share nessas modalidades até 2029.
Apesar de deter aproximadamente 9% da base de clientes bancarizados no país, o Inter participa com apenas 1,5% a 2% em várias linhas de crédito. A meta é converter engajamento em monetização via cross-sell e upsell, ampliando depósitos e destravando alavancagem.
Imagem: Internet
Reação do mercado e questionamentos sobre sustentabilidade
A divulgação do lucro recorde de R$ 395 mi no 1T26 não impediu a forte volatilidade dos papéis. Na semana subsequente ao balanço, as ações INTR recuaram mais de 14% em Nova York; no pregão seguinte ainda registravam queda de 4,4%.
Analistas passaram a discutir até que ponto a expansão é sustentável e “a que custo” está sendo construída, sobretudo diante do risco de deterioração de carteira num cenário de juros elevados. A gestão reconhece o desafio: crescer sem comprometer a qualidade dos ativos.
Para mitigar essa percepção, o banco reforça a intenção de focar em linhas com garantia real, manter índice de inadimplência controlado e intensificar sistemas de análise de crédito baseados em dados proprietários.
Tecnologia e redução de despesas externas
Mensalmente, a instituição mapeia contratos de outsourcing, consultorias e fornecedores. A meta é cortar ineficiências relevantes mediante a substituição por soluções internas ou ferramentas baseadas em algoritmos, capazes de executar tarefas “por uma fração do custo”, conforme o CFO.
Esse movimento, aliado ao ganho de escala — a receita dobrou enquanto o quadro de pessoal permaneceu praticamente estável — sustenta a projeção de queda no índice de eficiência para 30%, peça-chave também do plano 60-30-30.
Conclusão técnica
A adoção da “Regra dos 50” eleva a barra estratégica do Banco Inter ao exigir simultaneamente crescimento de dois dígitos altos e rentabilidade comparável à de grandes instituições. O caminho definido envolve migrar capital para linhas de crédito com garantia, destravar alavancagem operacional e reduzir despesas por meio de tecnologia, enquanto administra a percepção de risco em um ambiente de juros ainda elevados. Até 2029, o êxito ou fracasso da iniciativa será medido pela capacidade da instituição de manter expansão anual acima de 30% e levar o ROE a patamares que, somados, cheguem a 50%, sem comprometer a qualidade dos ativos nem a disciplina de custos que sustenta a promessa de eficiência de 30% até 2027.




