Um foco de raiva em um bovino no município de Angelina, na Grande Florianópolis, levou a Companhia Integrada de Desenvolvimento Agrícola de Santa Catarina (CIDASC) e a Secretaria de Estado da Agricultura a emitirem alerta sanitário imediato, recomendações de vacinação em massa e intensificação da vigilância em toda a região.
Confirmação laboratorial e ações emergenciais
O diagnóstico positivo foi obtido após exame laboratorial conduzido pelo Laboratório de Referência em Raiva Animal, validado pela Organização Mundial de Saúde Animal (OMSA). A amostra foi coletada em 24 de junho e confirmada em 27 de junho. A partir desse resultado, a CIDASC acionou o plano estadual de contingência para raiva, que prevê:
- Notificação imediata a propriedades em um raio de 12 km do foco.
- Vacinação compulsória de bovinos, equídeos, caprinos e ovinos no perímetro de vigilância.
- Interdição temporária de movimentação de animais suscetíveis sem comprovação vacinal.
- Monitoramento diário por médicos-veterinários das comunidades de Coqueiros, Betânia, Rio Engano e Garcia.
Segundo a gerente estadual de defesa agropecuária, Patrícia Sens, “o primeiro ciclo de imunização deve ser concluído em até 30 dias”. Um segundo animal da mesma localidade teve material biológico encaminhado para análise; o laudo está previsto para ser divulgado em até 10 dias úteis.
Sintomas observados e protocolo de vigilância clínica
A raiva bovina apresenta evolução rápida, com letalidade de quase 100%. No caso confirmado, o rebanho apresentou:
- Perda de apetite nas primeiras 24 horas.
- Andar cambaleante e ataxia dos membros pélvicos.
- Decúbito lateral associado a movimentos de pedalagem.
- Sialorreia intensa e episódios de agressividade.
O protocolo catarinense determina que, diante de sinais neurológicos compatíveis, o produtor comunique a unidade local da CIDASC em até 24 horas. A coleta de tecido encefálico é realizada somente após eutanásia sanitária para evitar riscos de transmissão. Em 2023, o sistema estadual registrou 19 notificações suspeitas, com 3 confirmações em diferentes regiões; em 2024, este é o primeiro caso positivo oficialmente divulgado.
Campanha de vacinação e metas oficiais
Embora a vacinação antirrábica não seja obrigatória em todo o território catarinense, o Regulamento Estadual de Defesa Sanitária Animal estabelece imunização compulsória em zonas com ocorrência comprovada. As metas divulgadas nesta quarta-feira preveem:
Imagem: Divulgação
- 100% do rebanho de Angelina vacinado até 31 de julho.
- 85% de cobertura nos municípios limítrofes (Rancho Queimado, Leoberto Leal e Alfredo Wagner).
- Campanhas educativas em escolas rurais, com distribuição de 5 mil folhetos explicativos.
O imunizante utilizado é produzido em cultivo celular, frasco multidose de 25 ml, com validade de 24 meses. Cada animal deve receber 2 ml por via intramuscular, seguido de reforço anual. A aquisição fica a cargo do produtor, mas a Secretaria de Agricultura subsidiará 70% do custo para propriedades enquadradas no Programa de Desenvolvimento da Agricultura Familiar (Pronaf).
Histórico epidemiológico e repercussões econômicas
Santa Catarina manteve o status de “baixo risco” para raiva dos herbívoros nos últimos cinco anos. O último surto de maior amplitude foi registrado em 2019, envolvendo 42 bovinos em Papanduva e resultando em perdas diretas estimadas em R$ 210 mil. Especialistas alertam que um único foco pode provocar:
- Queda de produtividade leiteira de até 30% nas fazendas vizinhas, devido ao estresse na ordenha.
- Rejeição comercial temporária de lotes destinados ao abate, caso o status sanitário não seja comprovado.
- Custos adicionais em biossegurança (cercamento, iluminação de currais e controle de hematófagos).
No cenário atual, a Secretaria de Estado da Agricultura estima impacto econômico potencial entre R$ 1,8 milhão e R$ 2,4 milhões caso o vírus se dissemine para até três municípios vizinhos, levando em conta despesas com vacinação emergencial, análises laboratoriais e perdas produtivas.
Conclusão técnica
A confirmação de raiva bovina em Angelina exige resposta coordenada para conter o vírus e preservar a condição sanitária do estado. As autoridades já estabeleceram cordão de vacinação, bloqueio de trânsito de animais sem comprovação imunológica e monitoramento clínico diário. O resultado do segundo exame, previsto para a próxima semana, definirá se novas medidas restritivas serão adotadas. Enquanto isso, produtores devem seguir o calendário vacinal, reforçar a identificação de morcegos hematófagos em abrigos próximos e comunicar imediatamente qualquer sinal neurológico suspeito. O êxito da estratégia depende do cumprimento integral dessas orientações nos próximos 60 dias.




