Uma fissura circular surgida em abril de 2026 no km 47 da SC-477, entre Canoinhas e Major Vieira, revelou a presença de solo tipo A6 — considerado sem capacidade de suporte — sob três placas de concreto inauguradas em setembro de 2025, levando à remoção total do material comprometido e à reconstrução imediata do trecho pela construtora responsável, sem ônus ao Estado.
Diagnóstico imediato: trinca circular e identificação do solo A6
A trinca, classificada como do tipo circular, foi detectada por equipes da Secretaria de Infraestrutura e Mobilidade de Santa Catarina (SIE) durante uma inspeção de rotina. Segundo o engenheiro André Torrens, coordenador regional de infraestrutura do Norte catarinense, a anomalia indicou falha no subleito — a camada de solo situada logo abaixo do pavimento.
No momento da remoção, foram descobertas três placas de concreto danificadas, totalizando aproximadamente 45 m². A escavação revelou um material classificado como solo argiloso A6 de baixa resistência. Esse tipo de solo, quando submetido a carregamentos repetidos, perde rapidamente sua capacidade de suporte, o que provoca movimentações diferenciais na pista.
A irregularidade não havia se manifestado na estrutura anterior — um pavimento flexível de asfalto — porque o revestimento betuminoso absorve pequenas deformações, apresentando apenas solavancos e ondulações. Já o pavimento rígido, composto por placas de concreto, transfere diretamente tensões ao subleito, fazendo com que qualquer instabilidade apareça em forma de fissuras.
Método white topping e parâmetros construtivos empregados
A revitalização da SC-477 adotou a técnica de white topping, que consiste na aplicação de uma camada de concreto sobre a estrutura asfáltica pré-existente. O empreendimento previa placas de 20 cm de espessura, com juntas serradas a cada 4,50 m, projetadas para suportar tráfego pesado por, no mínimo, 20 anos.
Para acelerar a liberação ao tráfego, a mistura original recebeu dosagem de 350 kg de cimento por metro cúbico e aditivo acelerador de cura. Em condições ideais, o concreto atinge resistência de serviço em 28 dias; contudo, com o aditivo, a expectativa passou a ser de cinco dias, mantendo o módulo de elasticidade especificado em 28 GPa.
O trecho entre Canoinhas e Major Vieira possui Volume Médio Diário (VMD) estimado em 6 500 veículos, dos quais 18 % são caminhões. Essa intensidade justifica a escolha pelo concreto, material comum em trechos de alto esforço, como as curvas da Serra Dona Francisca, também no Norte do Estado.
Procedimento de correção e novos insumos estruturais
A construtora responsável removeu integralmente as três placas afetadas, além de cerca de 60 cm adicionais de solo. Após a escavação, a equipe compactou o subleito até atingir 98 % do Índice de Suporte Califórnia (ISC), parâmetro mínimo exigido em contrato.
Em seguida, foram aplicadas duas camadas de rocha britada, totalizando 25 cm, que servem como base estabilizadora. Sobre a brita, instalou-se nova armadura de fibra sintética dispersa no concreto, aumentando a resistência à tração sem prejudicar a trabalhabilidade.
Imagem: Divulgação
As novas placas receberam traço com 380 kg de cimento, brita 1, areia média lavada e aditivo superplastificante, garantindo resistência característica à compressão de 42 MPa. Juntas de retração foram seladas com mástique elastomérico para reduzir infiltrações. O processo completo — demolição, recomposição de base e concretagem — foi concluído em oito dias consecutivos.
Garantia contratual e impacto financeiro
A intervenção foi executada dentro do prazo de garantia de cinco anos previsto no contrato original, estimado em R$ 37 milhões para todo o lote da SC-477. Dessa forma, nenhum recurso adicional foi desembolsado pelo Tesouro Estadual.
De acordo com relatório técnico da SIE, o custo direto da correção, arcado pela empreiteira, foi de R$ 148 mil, valor que inclui demolição, transporte de entulho, aquisição de insumos e mão de obra qualificada. A fiscalização acompanhou cada etapa, registrando ensaios de compactação, slump-test e extração de corpos-de-prova do concreto.
O tráfego permaneceu em sistema pare-e-siga durante a execução. Painéis de mensagem variável indicaram tempos de espera médios inferiores a 12 minutos, segundo dados da Polícia Militar Rodoviária.
Conclusão técnica e próximos passos
A fissura na SC-477 evidenciou a importância de investigações geotécnicas aprofundadas antes da implantação de pavimento rígido em rodovias com histórico de instabilidade. Com a substituição do solo A6 por camadas de brita compactada, a seção passou a atender aos parâmetros de ISC e módulo resiliente exigidos nas normas DNIT.
Nas próximas semanas, a SIE programou ensaio de deflectometria a laser para monitorar o desempenho do novo segmento. Caso os resultados confirmem estabilidade, o modelo de reforço adotado poderá ser replicado em outros pontos críticos da malha catarinense, mitigando riscos de fissuras prematuras e prolongando a vida útil das pavimentações em concreto.




