Renda fixa: Itaú BBA vê pressão de caixa na Cemig até 2028, mas mantém qualidade de crédito

Investidores em títulos de dívida da Cemig receberam do Itaú BBA um sinal de alerta: o robusto ciclo de R$ 43,7 bilhões em investimentos previsto até 2030 tende a elevar a alavancagem e comprimir o caixa da companhia até a revisão tarifária de 2028, quando parte relevante do retorno financeiro começará a entrar em caixa. Mesmo assim, o banco reforça que o perfil regulado da elétrica sustenta a capacidade de pagamento de juros e principal das debêntures nesse período.

Modelo regulado ancora a solidez do fluxo de receita

A análise do Itaú BBA parte do fato de que aproximadamente 50 % do resultado operacional da Cemig decorre da distribuição de energia, atividade sujeita a tarifas definidas pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). Esse enquadramento regulatório garante previsibilidade de receita e menor exposição a fatores de mercado, o que tradicionalmente enquadra a elétrica como emissor defensivo no mercado de crédito.

Os demais segmentos apresentam a seguinte composição: geração responde por 27 % e transmissão e gás natural por 21 %. Essa diversificação, ainda que menor, complementa a estabilidade trazida pelo negócio principal.

Graças a esse arcabouço regulado, o endividamento atual — dívida líquida de R$ 17,8 bilhões e alavancagem de 2,4 x Ebitda no 1T26 — permanece, segundo o relatório, em patamar considerado administrável para o setor elétrico, onde referências de até 3 x Ebitda são usualmente aceitas pelo mercado.

Investimentos elevam a alavancagem no curto prazo

O plano corporativo sinaliza R$ 43,7 bilhões em desembolsos até 2030, concentrados na modernização e expansão da rede de distribuição. O principal objetivo é reduzir perdas técnicas e não técnicas, melhorar indicadores de qualidade do serviço e preparar o sistema para a eletrificação crescente da economia.

Entretanto, os recursos desembolsados agora só serão reconhecidos nas tarifas a partir de 2028, quando ocorre a próxima revisão tarifária de maior impacto. Esse descompasso provoca free cash flow negativo recorrente, forçando a companhia a recorrer a emissões adicionais de debêntures e outros instrumentos de dívida para suportar o capex.

No cenário-base do banco, a alavancagem deve oscilar acima de 2,5 x Ebitda entre 2026 e 2027, “ainda que sem ultrapassar o limite confortável de 3 x” para empresas do mesmo porte e natureza regulada.

Renda fixa: Itaú BBA vê pressão de caixa na Cemig até 2028, mas mantém qualidade de crédito - Imagem do artigo original

Imagem: Internet

Mecanismos de financiamento e mitigantes de risco

Para equilibrar o caixa durante o ciclo de investimentos, a Cemig conta com:

  • Acesso recorrente ao mercado de capitais, sustentado pelo histórico de pagamentos pontuais e ratings sólidos;
  • Perfil de amortização alongado, que espalha os vencimentos e reduz concentrações de curto prazo;
  • Reciclagem de ativos não estratégicos, alternativa que pode gerar liquidez adicional sem comprometer o core business.

Além disso, indicadores operacionais seguem acima das exigências regulatórias. A taxa de arrecadação, por exemplo, permanece acima de 99 %, e os indicadores de duração e frequência de interrupções estão melhores que os limites da Aneel, fatores que evitam penalidades e fortalecem o fluxo de caixa operacional.

Perspectiva de melhoria pós-revisão tarifária

A partir de 2028, a expectativa é de que a incorporação dos ativos investidos às tarifas eleve o Ebitda e, consequentemente, reduza a alavancagem. O Itaú BBA projeta trajetória de queda gradual da dívida líquida/Ebitda após o pico previsto para 2027. Essa dinâmica tende a normalizar o fluxo de caixa livre e melhorar a margem de segurança para credores.

Diante desse horizonte, o banco mantém a classificação de emissor de boa qualidade de crédito para a companhia, mas recomenda que investidores tenham ciência do aumento temporário de risco, refletido em prêmios mais altos exigidos nas novas emissões de debêntures.

Conclusão técnica

O relatório indica que, embora o ciclo de investimentos pressione caixa e alavancagem da Cemig entre 2026 e 2028, a combinação de receita regulada, acesso a financiamento e perfil de amortização dilatado sustenta a capacidade de honrar obrigações financeiras. Com a revisão tarifária, a tendência é de recuperação do fluxo de caixa e redução gradual do endividamento. Para credores, o papel segue enquadrado como defensivo, porém atrelado a um período de volatilidade de preços e spreads elevados até que o retorno dos investimentos se materialize.