Fundo imobiliário vê locatária deixar 16% da receita enquanto Mercado Livre inaugura maior galpão da América Latina

São Paulo, 3 de maio de 2026 – O Fundo Imobiliário Hedge Office Income (HOFC11) comunicou a saída antecipada de uma inquilina responsável por 16,1% de sua receita mensal, ao mesmo tempo em que, a apenas 60 quilômetros da capital paulista, o Mercado Livre recebeu oficialmente o maior centro de distribuição built-to-suit da América Latina, desenvolvido pelo BTG Pactual LOG AAA Cajamar FII (BTLA11). Os dois acontecimentos concentraram a atenção dos investidores brasileiros desde a segunda-feira, 27, por mostrarem, em paralelo, riscos e oportunidades do segmento de imóveis corporativos.

Desocupação abala 11,7% da área locável do HOFC11

A Conduent do Brasil Serviços de Call Center notificou o HOFC11 sobre a rescisão antecipada do contrato de locação no Edifício Birmann 20, endereço corporativo situado na Avenida das Nações Unidas, bairro de Santo Amaro, zona sul da cidade de São Paulo. Os espaços a serem devolvidos abrangem dois conjuntos – o 201, no 2º andar, e o 1.001, no 10º – além de dois depósitos no subsolo.

Em termos de área, a perda corresponde a cerca de 11,7% da área bruta locável (ABL) do portfólio do fundo. O efeito sobre a linha de receita, entretanto, é mais expressivo: como o contrato respondia por 16,1% dos aluguéis registrados em abril, haverá impacto direto na distribuição de rendimentos futura se não ocorrer uma recolocação rápida dos espaços.

De acordo com o fato relevante divulgado à B3, o contrato previa multa pela saída antes do prazo, mas o valor não compensa a perda recorrente. A gestão do HOFC11 informou que já iniciou tratativas comerciais para recolocar os conjuntos. O Birmann 20 é classificado como edifício corporativo de padrão A e compete com torres vizinhas que enfrentam vacância elevada desde a pandemia.

Analistas lembram que a Avenida das Nações Unidas passou por forte onda de devoluções em 2023 e 2024, e que o preço pedido recuou em média 18% no triênio até 2025. O fundo, que possuía vacância física de 4,2% até março, poderá ver esse índice saltar para perto de 16% com a saída da Conduent.

Mercado Livre expande logística com centro de 230 mil m² em Cajamar

Enquanto o HOFC11 gerencia a perda de receita, outro fundo imobiliário concluiu o maior projeto logístico já erguido sob medida no continente. O BTLA11 realizou na quarta-feira, 29, a cerimônia de entrega da primeira fase do galpão de 230 mil metros quadrados locado integralmente ao Mercado Livre em Cajamar, polo estratégico do e-commerce brasileiro.

O terreno, adquirido no primeiro trimestre de 2025, possui 270 mil metros quadrados de ABL potencial. A fase inicial entregue nesta semana contempla 185 mil metros quadrados. Segundo o diretor executivo do BTG Pactual Asset Management, Francisco Tavares, as obras permanecerão em ritmo acelerado para concluir a totalidade até o fim de 2026.

O contrato de locação foi estruturado no modelo built-to-suit, com prazo firme de 15 anos, correção anual pelo IPCA e garantia corporativa da controladora argentina do Mercado Livre. Pelas projeções divulgadas no prospecto do BTLA11, a receita anual do empreendimento deve ultrapassar R$ 180 milhões quando 100% concluído.

Cajamar se consolidou como principal corredor logístico da Grande São Paulo por oferecer acesso rápido às rodovias Anhanguera e Bandeirantes. Nos últimos dois anos, a vacância de galpões classe A na região caiu de 12% para 4%, de acordo com levantamento da consultoria SiiLA. A entrada do ativo do BTLA11 pressiona a oferta, mas a demanda do setor de comércio eletrônico segue forte, sustentada pelo crescimento de dois dígitos no volume de pedidos.

Bancos disputam cliente de alta renda com novas salas VIP em Guarulhos

O movimento de expansão física não se limita ao mercado de lajes e galpões. Na sexta-feira, 1º de maio, o Banco do Brasil inaugurou sua sala VIP no Aeroporto Internacional de Guarulhos. A abertura intensifica a concorrência com Bradesco, Nubank, BTG Pactual e C6 Bank, que já operam lounges próprios no terminal.

Localizado na área restrita do Terminal 3, o espaço do BB oferece capacidade para 140 passageiros simultâneos, conexão wi-fi de alta velocidade, duchas individuais e serviço de alimentação 24 horas. O investimento, cujo valor não foi revelado, faz parte da estratégia da instituição de ampliar benefícios não financeiros aos correntistas das categorias Estilo e Private.

Segundo dados da GRU Airport, o fluxo de passageiros internacionais voltou ao patamar pré-pandemia no primeiro semestre de 2025 e projetava avanço adicional de 8% em 2026. A disputa por salas VIP reflete a busca dos bancos por visibilidade em um ambiente de alta circulação do público de renda elevada.

Perspectivas e próximos passos

Para os cotistas do HOFC11, a atenção se volta agora para o ritmo de absorção do escritório em Santo Amaro. Cada mês de vacância adicional representa queda direta no rendimento distribuído. Já no caso do BTLA11, o desafio reside na execução do cronograma de obras sem pressões de custo que comprometam o retorno projetado.

Os acontecimentos da semana reforçam duas leituras principais do mercado imobiliário brasileiro: a resiliência do segmento logístico impulsionado pelo comércio eletrônico e a sensibilidade dos escritórios à rotatividade de inquilinos, ainda maior em regiões com oferta abundante. Investidores monitoram esses vetores para calibrar a exposição em fundos imobiliários de perfil corporativo ou industrial.

Com a inauguração da sala VIP do Banco do Brasil, o aeroporto de Guarulhos consolida-se como vitrine estratégica para o setor financeiro, que enxergou nos lounges uma forma adicional de fidelizar a clientela premium e captar novos correntistas.

Entre devoluções, inaugurações e disputas por serviços de alto padrão, o mercado imobiliário mostrou, nesta virada de mês, que riscos e oportunidades convivem lado a lado – exigindo análise constante dos fundamentos de cada ativo.