Inteligência artificial redefine rotas do e-commerce e força varejistas a rever prioridades, aponta BTG Pactual

Relatório do BTG Pactual divulgado em 19 de junho de 2026 revela que o comércio eletrônico entrou em uma nova etapa, na qual agentes baseados em inteligência artificial já provocaram crescimento de 4.700% no tráfego de plataformas de varejo em apenas doze meses, sinalizando que, até 2030, cerca de 25% das transações globais poderão ocorrer sem intervenção humana direta.

Evolução da jornada de compra mediada por algoritmos

O estudo observa que o consumidor está transferindo a pesquisa de produtos, a comparação de preços e a finalização do pedido a assistentes autônomos. Esses sistemas coletam informações em múltiplas fontes, negociam condições de pagamento e concluem a compra em segundos, alterando a lógica tradicional do funil de vendas.

Com a automação, a disputa pela atenção tende a migrar dos sites proprietários para ecossistemas de recomendação. Empresas que alimentam esses ambientes com dados estruturados, catálogos completos e políticas de preço transparentes elevam as chances de serem selecionadas pelos algoritmos durante o processo de compra.

Além do salto de 4.700% no tráfego originado por plataformas de geração de linguagem, o relatório projeta que a taxa de conversão em sessões assistidas pode alcançar patamar até 3,5 vezes superior ao observado em buscas convencionais.

Magazine Luiza, Mercado Livre e Amazon aceleram iniciativas

Entre as companhias que já se reposicionam, o Magazine Luiza destaca-se pela integração de um hub de múltiplos agentes no serviço “WhatsApp da Lu”, capaz de guiar o consumidor da descoberta ao pagamento sem que este acesse o site. A iniciativa mantém o diálogo em linguagem natural e preserva o histórico de preferências, aumentando a taxa de recompra.

No Mercado Livre, o foco recai sobre infraestrutura. A companhia programou aporte de R$ 57 bilhões para expandir a rede a 42 centros de distribuição no Brasil até o fim de 2026. O objetivo é garantir inventário atualizado em tempo real, requisito considerado crítico para que agentes autônomos selecionem a plataforma com segurança logística.

Já a Amazon amplia testes com o assistente comercial Rufus, cujo modelo foi calibrado para recomendar produtos a partir de conversas contextuais. Dados internos indicam aumento significativo nas métricas de engajamento após adoção da ferramenta, sinalizando potencial de replicação em outros mercados da região.

Impacto financeiro, desafios competitivos e pressão sobre margens

Segundo o banco, 95% dos varejistas que implementaram soluções de inteligência artificial relatam redução de custos operacionais, enquanto 89% identificam elevação de receita. Os benefícios decorrem de ajustes dinâmicos de preços, rotas de entrega otimizadas e menor índice de devoluções graças a recomendações mais precisas.

Contudo, o avanço da automação reforça a ameaça de desintermediação. Com a decisão de compra delegada aos algoritmos, o vínculo emocional entre marca e consumidor perde espaço para critérios de preço, disponibilidade e prazo de entrega. A consequência direta é a intensificação da competição e a compressão das margens, cenário que exige ganhos de escala ou segmentação de nicho para sustentação da rentabilidade.

Outro ponto sensível envolve a governança dos dados. Empresas precisam fornecer catálogos extensos, descrições padronizadas e informações logísticas em formato legível por máquina. Quanto maior a qualidade desses dados, maior a probabilidade de uma oferta aparecer no topo das recomendações geradas pelos assistentes.

Conclusão técnica

O levantamento do BTG Pactual confirma que a adoção de sistemas de inteligência artificial no comércio eletrônico já ultrapassa a fase experimental, imprimindo novo ritmo ao setor. A tendência aponta para participação crescente dessas tecnologias na intermediação de vendas até 2030, com implicações diretas sobre estrutura de custos, estratégias de precificação e fidelização de clientes. Para manter competitividade, varejistas terão de priorizar qualidade de dados, robustez logística e transparência de preços, além de acelerar investimentos em interfaces conversacionais capazes de dialogar com agentes autônomos. O sucesso dependerá da capacidade de cada companhia em alinhar operações, marketing e tecnologia a um ambiente em que decisões de compra são tomadas, cada vez mais, por algoritmos.