O lucro líquido ajustado da C&A Modas (CEAB3) avançou 218,7 % no primeiro trimestre de 2026, alcançando R$ 8 milhões e provocando alta de 12 % nos papéis da varejista, por volta das 13h40, no pregão desta quarta-feira (6); analistas de grandes bancos enxergam retomada gradual após as dificuldades registradas no fim de 2025.
Balanço do 1T26: retomada de rentabilidade e vendas nas lojas físicas
O trimestre marcou o retorno da companhia ao lucro após os impactos negativos do quarto trimestre de 2025, quando fatores climáticos e um portfólio desalinhado afetaram as vendas. No 1T26, a receita líquida cresceu 0,5 %, totalizando R$ 1,62 bilhão.
O Ebitda ajustado somou R$ 245 milhões, praticamente estável frente ao mesmo período de 2025, com margem levemente comprimida de 15,1 % contra 15,2 % um ano antes. Embora a expansão do topo da receita tenha sido modesta, o indicador de produtividade de lojas trouxe sinal positivo: as vendas nas mesmas unidades (SSS) de vestuário avançaram 4,8 % depois de subirem 15 % no 1T25.
Segundo a empresa, a recuperação refletiu a correção do mix de produtos, o ajuste de estoques e campanhas promocionais mais alinhadas ao comportamento do consumidor. A leve erosão de margem, por sua vez, foi atribuída à pressão de custos de frete e à continuidade do processo de saída do segmento de eletrônicos.
Repercussão nos bancos: de “problema pontual” a oportunidade de entrada
Para o Banco Safra, os números “ajustam a narrativa” de que havia falha estrutural na operação. A instituição ressaltou que o desempenho fraco do 4T25 foi influenciado por fatores transitórios; agora, com SSS +4,8 % e manutenção de margem bruta, o cenário volta a ser de turnaround gradual.
O BTG Pactual destacou o lucro acima do consenso de mercado e reafirmou recomendação de compra. Apesar de projetar ambiente mais desafiador para o consumo discricionário em 2026, o banco vê múltiplo atraente: a ação negocia a cerca de 6,7 vezes o lucro estimado para o ano.
Já o Bradesco BBI manteve a indicação de compra, embora tenha reduzido o preço-alvo de R$ 24 para R$ 18. Os analistas apontam free cash flow negativo e maior necessidade de capital de giro como pontos de atenção, mas classificam a fraqueza como sazonal, relacionada principalmente ao adiantamento da coleção de inverno.
Imagem: Agência Estado
A XP Investimentos reforçou que o ajuste de portfólio em vestuário começa a surtir efeito, mesmo com pressões vindas do C&A Pay e da saída de eletrônicos. Segundo a corretora, o avanço nas tendências de venda ao longo do trimestre consolida a percepção de recuperação operacional.
Valuation, desafios e catalisadores até o fim do ano
Com a valorização intradiária de 12 %, o papel recupera parte das perdas acumuladas desde dezembro e volta ao patamar de R$ 12,85. Ainda assim, permanece abaixo da máxima de 2025, oferecendo, segundo estimativas compiladas pelo mercado, potencial de valorização superior a 40 % frente aos preços-alvo médios.
Entre os principais obstáculos para a segunda metade de 2026 estão:
- Pressão sobre o consumo discricionário em meio à expectativa de crescimento econômico moderado;
- Comparações mais duras no segundo semestre, uma vez que a base de 2025 foi favorecida por descontos agressivos nas coleções de primavera-verão;
- Manutenção do fluxo de caixa livre negativo, resultado de maiores investimentos em tecnologia e logística.
Por outro lado, a companhia conta com alguns catalisadores:
- Recebimento recorrente de créditos tributários, estimados em R$ 250 milhões anuais até 2027, que elevam a linha final do lucro;
- Expansão do programa de fidelidade e do C&A Pay, com foco em aumento de tráfego e recorrência nas lojas físicas;
- Eficiência operacional via melhorias de inteligência de estoque, projetadas para reduzir quebras e elevar margem bruta.
Conclusão técnica
Os resultados do 1T26 indicam que os ventos contrários do fim de 2025 foram atenuados e que o plano de ajuste comercial já produz efeito nas lojas físicas. A trajetória de recuperação, porém, requer confirmação nos próximos trimestres, especialmente na geração de caixa e na sustentação das margens em um cenário de demanda mais restrita. Enquanto o múltiplo de price-to-earnings permanece abaixo da média histórica do setor, o mercado monitora o desempenho do SSS e a normalização do capital de giro como vetores centrais para a continuidade da reprecificação das ações ao longo de 2026.


