Pedestres escorregavam sobre frutos de jerivá desde o fim do século XIX, cenário que levou Blumenau a substituir espécies e a reformular a histórica Rua das Palmeiras, hoje oficialmente Alameda Duque de Caxias.
Origem da alameda e o plantio das primeiras jerivás
No final do século XIX, cerca de 100 palmeiras jerivá foram alinhadas ao longo da via que conectava o centro administrativo da então Colônia Blumenau às residências de líderes locais. Inspirado nos boulevards europeus, Hermann Bruno Otto Blumenau projetou a Palmenallee para simbolizar organização, poder e progresso urbano. A disposição simétrica das árvores garantiu ao trajeto status de cartão-postal logo nos primeiros registros fotográficos, datados de 1915.
A escolha da espécie teve base estética, mas também respondia à necessidade de sombreamento em uma cidade cujos verões são marcados por alta umidade e temperaturas que ultrapassam 30 °C. Contudo, a decisão ignorou um fator crucial: o comportamento dos frutos da Syagrus romanzoffiana, popular jerivá.
Frutos no chão e a sequência de quedas
A cada ciclo de frutificação, cocos ovais com cerca de 2 cm de diâmetro despencavam das copas. Ao se romperem, liberavam polpa oleosa que, misturada à umidade, formava uma camada escorregadia sobre o calçamento de paralelepípedos. Relatos da imprensa local das décadas de 1920 e 1930 já mencionavam tombos frequentes de moradores e visitantes.
Sueli Petry, historiadora citada no arquivo municipal, aponta que as quedas se tornaram tão corriqueiras que comprometeram a circulação de autoridades durante eventos cívicos. Mesmo assim, os frutos não eram apenas fonte de risco: comunidades indígenas do Vale do Itajaí consumiam sua amêndoa, rica em lipídios e fibras, prática documentada por etnógrafos à época.
Com o aumento do tráfego de veículos leves na década de 1940, o problema ganhou nova dimensão, pois a superfície oleosa reduzia a aderência de pneus e gerava pequenos acidentes de bicicleta, charrete e, posteriormente, automóveis.
Substituição por palmeiras imperiais e mudanças de nomenclatura
Diante da deterioração das jerivás e da escalada de acidentes, a gestão do prefeito Hercílio Deeke, em 1950, autorizou a remoção gradual das árvores originais. Foram plantadas palmeiras imperiais (Roystonea oleracea), mais altas, sem frutos de queda abundante e com adaptação comprovada ao solo arenoso da região.
Imagem: Brenda Bittencourt
Hoje, restam aproximadamente 62 exemplares da nova espécie, segundo inventário da Secretaria Municipal de Conservação Urbana. A troca coincidiu com alterações toponímicas que refletiam contextos políticos: de Palmenallee para Rua das Palmeiras, depois Boulevard Herman Vandenburg e Alameda Dr. Blumenau, até chegar, em 1942, a Alameda Duque de Caxias, nome oficial vigente desde o rompimento diplomático do Brasil com a Alemanha na Segunda Guerra Mundial.
Persistência histórica e perspectivas futuras
Mesmo após as intervenções paisagísticas, a via manteve protagonismo em solenidades, desfiles e recepções de chefes de Estado. As cheias do Rio Itajaí-Açu de 1983 e 1984 cobriram parte da alameda, episódios registrados por fotografias aéreas que ilustram a resiliência do conjunto arbóreo.
Nos últimos anos, o entorno ganhou novos vetores de atração, como a megaloja da Havan inaugurada a poucos metros. O fluxo de visitantes voltou a crescer, impulsionando projetos de iluminação cênica e sinalização patrimonial que estão em análise na Fundação Cultural de Blumenau.
Conclusão técnica
A substituição das jerivás por palmeiras imperiais solucionou o problema do piso escorregadio e preservou a imagem icônica da alameda, hoje integrada ao roteiro turístico e ao cotidiano comercial de Blumenau. Estudos da prefeitura indicam que, até 2025, será implantado um plano de manejo preventivo para monitorar a saúde das 62 palmeiras atuais, garantindo estabilidade estrutural, controle fitossanitário e continuidade histórica do principal corredor simbólico do município.


