No sábado, 2 de maio de 2026, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, confirmou em Washington que recebeu um documento de 14 pontos enviado pelo Irã, por meio do Paquistão, para tentar encerrar o conflito iniciado em fevereiro no Oriente Médio. A proposta, ainda em análise pela Casa Branca, reacendeu expectativas de um acordo, mas o próprio Trump declarou ser “improvável” que o texto atenda às exigências americanas, mantendo dúvidas sobre a data de encerramento das hostilidades.
Negociação indireta mediada pelo Paquistão
Fontes ligadas às agências semioficiais iranianas Tasnim e Fars informaram que Teerã estruturou a nova oferta em 14 itens, resposta a um rascunho anterior dos EUA que continha nove pontos. O Paquistão, que já atuou como ponte diplomática em rodadas anteriores, entregou o documento ao Departamento de Estado na sexta-feira (1º).
De acordo com diplomatas paquistaneses, os tópicos abordam:
- Retirada escalonada de navios de guerra dos EUA do Golfo Pérsico;
- Reabertura plena do Estreito de Ormuz para embarcações de todas as bandeiras;
- Suspensão gradual das sanções ao setor de energia iraniano;
- Mecanismo de verificação conduzido por observadores da ONU.
Apesar do cessar-fogo que já dura três semanas, Washington e Teerã ainda divergem sobre a amplitude das sanções financeiras e sobre garantias de segurança para petroleiros que trafegam pela rota estratégica.
Trump questiona “consequências proporcionais”
Antes de embarcar para a Flórida, Trump disse a repórteres que esperava a “versão final” do texto, mas horas depois, nas redes sociais, endureceu o tom: “O Irã não sentiu, até agora, as consequências proporcionais por anos de agressões”. A declaração foi interpretada por analistas como sinal de que a Casa Branca poderá pedir ajustes que incluam reparações econômicas ou inspeções militares mais rígidas.
Integrantes do Conselho de Segurança Nacional confirmaram que o governo norte-americano exige:
- Liberação imediata de navios retidos próximos a Bandar Abbas;
- Desmobilização de baterias de mísseis costeiros instaladas após fevereiro;
- Compromisso público de não obstrução futura no Estreito de Ormuz.
No campo militar, o Comando Central dos EUA informou ter orientado 48 navios mercantes a permanecer fora da zona de risco desde 13 de abril, parte do bloqueio naval que tenta cortar a receita de exportação de petróleo iraniano.
Crise humanitária e pressão internacional
A negociação ocorre em meio a nova preocupação com a saúde da advogada iraniana Narges Mohammadi, ganhadora do Prêmio Nobel da Paz. Detida em Zanjan após sofrer crise cardíaca, Mohammadi aguarda autorização para ser transferida a Teerã e realizar angiografia com equipe médica de confiança. Sua fundação e o Comitê Norueguês do Nobel pediram intervenção urgente, alertando que “a vida dela está nas mãos das autoridades”.
Em paralelo, grupos de direitos humanos denunciaram a execução de dois iranianos acusados de espionagem para Israel. O portal Mizanonline, ligado ao Judiciário, identificou os réus como Yaghoub Karimpour e Nasser Bekrzadeh. Eles teriam repassado informações sobre instalações nucleares — inclusive a planta de Natanz, alvo de bombardeio em 2025.
Segundo estatísticas compiladas por ONGs, mais de uma dezena de pessoas foi enforcada no país nas últimas semanas sob acusações similares, normalmente após julgamentos sem transparência.
Imagem: Internet
Estreito de Ormuz continua no centro da disputa
O Estreito de Ormuz, responsável por aproximadamente 20% do comércio marítimo global de petróleo, permanece parcialmente fechado desde 28 de fevereiro, quando as tensões escalaram. Entenda o impacto:
- Fluxo diário de 17 milhões de barris foi reduzido em cerca de 60%, segundo a Agência Internacional de Energia;
- Custos de frete para superpetroleiros subiram 150% em relação à média de 2025;
- Empresas de navegação relatam sobretaxas de até US$ 700 mil por viagem para cobrir seguros de guerra.
A fim de coibir pagamentos que viabilizem passagem segura oferecida por Teerã, o Departamento do Tesouro dos EUA divulgou nota na sexta-feira proibindo transações em dinheiro, ativos digitais, compensações ou doações que permitam o uso de rotas costeiras iranianas.
Cronologia recente do conflito
28 de fevereiro de 2026 — Escalada militar entre EUA, Israel e Irã leva Teerã a restringir tráfego no Estreito.
13 de abril — Washington inicia bloqueio naval a portos iranianos.
18 de abril — Irã reabre brevemente a passagem, mas volta a fechá-la 24 horas depois.
26 de abril — Trump, em entrevista à Fox News, declara que a guerra “acabará em breve”, mas descarta viagem presencial para negociar.
1º de maio — Paquistão entrega proposta de 14 pontos do Irã a autoridades americanas.
2 de maio — Presidente dos EUA confirma recepção do plano e expressa ceticismo público.
Próximos passos
Diplomatas em Washington, Teerã e Islamabad indicam que a análise do texto iraniano pode levar até uma semana. Caso haja avanço, negociadores discutem realizar uma sessão presencial em Mascate, Omã, país que se mantém neutro e já sediou conversas preliminares em março.
Enquanto isso, o cessar-fogo técnico segue em vigor, mas autoridades militares americanas alertam para “postura defensiva elevada” na região, citando lançamentos esporádicos de drones e movimentação de lanchas rápidas da Guarda Revolucionária.
A volatilidade no mercado de energia permanece: contratos futuros do petróleo Brent encerraram a sexta-feira cotados a US$ 112,90, alta de 1,8% na semana, refletindo tanto o temor de interrupções prolongadas quanto a esperança de um entendimento diplomático.
Sem um sinal claro de concessões mútuas, analistas acreditam que a disputa pode se arrastar por mais algumas semanas. O desfecho dependerá do grau de flexibilização de Washington nas sanções e da disposição do Irã em aceitar mecanismos internacionais de verificação, pontos que ainda separavam as partes na noite de sábado.
Até que uma resposta oficial seja divulgada, o documento iraniano permanece como a principal aposta para destravar o impasse, mas as declarações céticas de Donald Trump indicam que o caminho para o fim da guerra continua incerto.




