O avanço dos empréstimos em “Estágio 2” atingiu o maior patamar histórico no primeiro trimestre de 2026, mas o Nubank segue com recomendação de compra por parte do JP Morgan, que projeta alta de 41 % nas ações até dezembro.
Indicadores de risco escalam, puxados pelo “purgatório” do crédito
Dados divulgados pelo Nubank revelam que a proporção de operações classificadas como Estágio 2 — faixa que concentra atrasos entre 31 e 90 dias ou sinais de deterioração financeira — subiu para 11,5 % da carteira de cartão de crédito e para 15,4 % nos empréstimos pessoais. Trata-se do maior nível desde a fundação da companhia.
A escalada ganhou relevo após a Resolução 4.966 do Banco Central, que passou a segmentar o risco em três degraus:
- Estágio 1 — operações saudáveis, com atrasos inferiores a 30 dias;
- Estágio 2 — operações com elevação relevante de risco, ainda sem configuração formal de inadimplência;
- Estágio 3 — crédito problemático, com atraso superior a 90 dias.
Para o JP Morgan, o salto no Estágio 2 foi influenciado por ajustes mais conservadores nos modelos internos de Probability of Default (PD), e não por uma explosão imediata de calotes. Na prática, o Nubank estaria identificando e provisionando riscos de forma proativa, antes que as perdas se materializem.
Provisões avançam, mas colchão de cobertura permanece robusto
A política de antecipação de risco refletiu no indicador de custo de risco, que saltou para 20,3 % da carteira total no trimestre. Embora represente maior pressão sobre o resultado operacional, o reforço elevou a cobertura para operações com atraso entre 15 e 90 dias para próximo de 100 %.
Segundo analistas do JP Morgan, esse nível de cobertura funciona como um isolante contra deteriorações adicionais, uma vez que as provisões já absorvem potenciais perdas de curto prazo. A instituição ressalta que:
- O Nubank encerrou o trimestre com cerca de 40 % de crescimento anual em carteira de crédito, apesar do ambiente seletivo.
- O lucro segue crescendo acima de 30 % ao ano, mesmo após a alta nas provisões.
Ao mesmo tempo, o prazo médio dos contratos evoluiu de 6,4 para 8,5 meses, refletindo maior participação de linhas como consignado privado e antecipação de FGTS. Ainda distante dos 27 meses observados nos bancos incumbentes, o alongamento indica mudança estratégica que requer monitoramento, mas também amplia margens de rentabilidade.
Imagem: Internet
Valuation permanece atraente frente ao potencial de expansão
No relatório distribuído a clientes, o JP Morgan reiterou recomendação overweight (equivalente a compra) para os papéis ROXO34, com preço-alvo de US$ 18 para dezembro de 2026 — upside de 41 % sobre o último fechamento em Nova York.
Os analistas observam que o Nubank negocia a cerca de 11 vezes o lucro projetado para 2027, múltiplo considerado baixo para empresas de tecnologia financeira que mantêm expansão acima de 30 % ao ano. A percepção é de que o mercado penaliza de forma desproporcional o aumento do Estágio 2, ignorando:
- A resiliência da base de mais de 100 milhões de clientes na América Latina;
- O portfólio de produtos de maior ticket, em fase inicial de tração;
- A disciplina de capital demonstrada na antecipação de provisões.
Para o JP Morgan, essa combinação cria uma assimetria favorável entre risco e retorno, pois o preço atual não embute totalmente a trajetória de monetização futura.
Conclusão técnica
O aumento dos créditos em Estágio 2 pressiona provisões e eleva o custo de risco do Nubank, mas a estratégia preventiva de reforço de reservas reduz a probabilidade de surpresas negativas adiante. Com múltiplos ainda comprimidos e ritmo de crescimento superior ao do sistema bancário tradicional, o ativo permanece com perspectiva de valorização, segundo o JP Morgan. O cenário base do banco norte-americano aponta para manutenção do ciclo de expansão da carteira, sustentado por filtros mais rígidos de concessão e diversificação de linhas, condições que, na avaliação dos analistas, preservam o potencial de lucro no horizonte de 12 meses.




