Senado retoma análise de projeto que zera taxas de passaporte para estudantes de baixa renda em missões acadêmicas

O Senado Federal volta a apreciar nesta sexta-feira (8) o Projeto de Lei 861/2019, que propõe a isenção total das taxas de emissão de passaporte e documentos de viagem para estudantes de baixa renda com destino a atividades de ensino, pesquisa ou extensão no exterior. A matéria, já aprovada na Câmara dos Deputados, exige que o beneficiário esteja inscrito no Cadastro Único para Programas Sociais do Governo Federal (CadÚnico), apresente renda familiar de até três salários mínimos e comprove formalmente o propósito acadêmico da viagem.

Tramitação e mudanças desde a proposta original

Apresentado em 2019 pelo senador Veneziano Vital do Rêgo (MDB-PB), o texto inicial contemplava qualquer estudante brasileiro que comprovasse necessidade do passaporte para fins acadêmicos internacionais. O projeto avançou na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) com parecer favorável, mas recebeu emenda da Comissão de Educação (CE) que restringiu o benefício a alunos em situação de vulnerabilidade social.

Posteriormente, ao chegar à Câmara dos Deputados, a relatora deputada Laura Carneiro (PSD-RJ) endureceu os requisitos, estabelecendo a obrigatoriedade simultânea de inscrição no CadÚnico e limite de renda familiar. Com essas alterações, a proposta retornou ao Senado, que agora decide se mantém o texto alterado ou restabelece parte da redação original.

Critérios cumulativos para a gratuidade do passaporte

O texto em discussão determina que a isenção só será concedida quando três condições forem atendidas de forma cumulativa:

  • pertencer a família registrada no CadÚnico;
  • ter renda familiar mensal total de até três salários mínimos (atualmente R$ 4.236,00);
  • apresentar documentação que comprove finalidade de ensino, pesquisa ou extensão no exterior, emitida por instituição de ensino brasileira ou estrangeira reconhecida.

O requerente deverá protocolar o pedido de isenção junto à Polícia Federal, órgão emissor do passaporte. Caso a viagem não ocorra ou seja detectada informação inverídica, o beneficiário será obrigado a ressarcir integralmente as taxas dispensadas, acrescidas de correção monetária.

Impacto orçamentário e projeção de beneficiários

Dados reunidos pelos Ministérios da Educação e da Ciência, Tecnologia e Inovação estimam custo anual de R$ 1,63 milhão para a União. O cálculo considera o valor médio da taxa de passaporte (R$ 257,25) cruzado com o volume aproximado de 6.300 pedidos anuais de estudantes que se enquadram nos requisitos propostos.

Senado retoma análise de projeto que zera taxas de passaporte para estudantes de baixa renda em missões acadêmicas - Imagem do artigo original

Imagem: Reprodução

O impacto orçamentário é classificado como não significativo em termos de contas públicas, representando menos de 0,01 % do orçamento global do Ministério da Justiça — pasta responsável pela Polícia Federal. Mesmo assim, o parecer da relatora na Câmara reforçou a necessidade de focalizar o benefício para evitar “subvenção a famílias que, embora inscritas no CadÚnico, disponham de renda superior a três salários mínimos”.

Possíveis cenários a partir da deliberação de sexta-feira

Caso o Senado aprove integralmente o texto que veio da Câmara, o projeto seguirá para sanção presidencial. Se, porém, os senadores alterarem novamente o conteúdo — por exemplo, suprimindo a exigência de renda ou ampliando a abrangência a outros perfis —, a matéria retornará à Câmara para nova análise, conforme o processo legislativo bicameral.

No Executivo, a Casa Civil e o Ministério da Justiça já sinalizaram apoio ao formato mais restritivo, argumentando que a focalização garante justiça distributiva e controle fiscal. Organizações estudantis, por outro lado, defendem o retorno ao escopo original, alegando que a renda familiar de três salários mínimos pode não refletir o custo real de manutenção de um estudante no exterior.

Conclusão técnica

O PL 861/2019 chega ao plenário do Senado em fase decisiva, com um texto que privilegia estudantes em vulnerabilidade comprovada e prevê impacto orçamentário considerado administrável pela equipe econômica. A votação desta sexta-feira definirá se o Congresso manterá os critérios rigorosos aprovados na Câmara ou se retomará uma versão mais ampla. Após a deliberação, o projeto poderá seguir diretamente para sanção presidencial ou passar por nova rodada de ajustes na Câmara, etapa que condicionará o calendário de implementação da gratuidade nas emissões de passaporte para o público-alvo.