Uma decisão da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) publicada em 10 de agosto de 2026 autorizou plataformas de comércio eletrônico a intermediar a venda de medicamentos por farmácias licenciadas, eliminando a restrição vigente desde 2022 e reposicionando Shopee, iFood, Rappi e Mercado Livre num mercado que movimenta mais de R$ 150 bilhões anuais no Brasil.
Novo marco regulatório redefine papéis
A Lei nº 15.357/2026 conferiu base legal para que marketplaces atuem no chamado modelo 3P: farmácias permanecem responsáveis pela aquisição, estocagem e dispensação, enquanto as plataformas assumem apenas a intermediação logística e a vitrine virtual. Com isso, Anvisa revogou a proibição específica que, desde março de 2022, limitava a exibição e a propaganda de medicamentos na Shopee. A medida agora vale para todo o setor de delivery e comércio eletrônico, alinhando a regulação brasileira a práticas já consolidadas nos Estados Unidos e na União Europeia.
BTG Pactual interpreta a decisão como a retirada de um “limbo regulatório” que inibia investimentos em novas verticais de saúde digital. Não houve ampliação do rol de agentes autorizados a vender medicamentos, mas sim clareza sobre as responsabilidades sanitárias — elemento considerado crucial para destravar acordos com redes nacionais e farmácias independentes.
Estratégias das plataformas digitais ganham tração
iFood desponta como o nome mais bem posicionado para capturar tráfego imediato. De acordo com relatório do banco, o aplicativo — instalado em mais de 40 milhões de dispositivos ativos — oferece taxa de comissão de 6 % para farmácias que utilizarem frota própria e de 12 % quando optarem pela entrega via 400 mil entregadores parceiros. Além da capilaridade, o iFood integra sistemas de estoque, programas de fidelidade e descontos corporativos, replicando funcionalidades que já fidelizaram consumidores no segmento de alimentação.
A Shopee, por sua vez, obtém sinal verde para expandir a categoria de Health & Personal Care, amparada por uma base de vendedores independentes e política agressiva de cupons. A empresa asiática, no entanto, carece de frota própria para entregas instantâneas e deve depender de parcerias de último quilômetro, o que a coloca em desvantagem temporal frente ao concorrente nacional.
Já Mercado Livre e Rappi apostam na força de seus hubs de fulfillment e na experiência em categorias de alto giro. O primeiro controla uma malha de sort centers que permite entregas same day em mais de 100 cidades; o segundo, especializado em conveniência urbana, mira o nicho de medicamentos isentos de prescrição (OTC), onde a decisão de compra é fortemente influenciada pela urgência.
Efeitos sobre redes de drogarias consolidadas
Apesar do avanço digital, o BTG Pactual sustenta que gigantes omnichannel, como Raia Drogasil (RADL3), mantêm vantagens estruturais. A cadeia opera cerca de 2 900 lojas, que funcionam simultaneamente como pontos de venda, mini centros de distribuição e canais de retirada. Essa densidade física garante profundidade de sortimento — fator crítico em um mercado com mais de 55 mil SKUs distintos de medicamentos.
Imagem: Internet
Especialistas apontam que a compra de remédios exige precisão de molécula, dosagem e apresentação, atributos difíceis de replicar apenas com ferramental logístico. Pequenas redes, embora forneçam capilaridade, podem não sustentar a mesma escala de aquisições nem o nível padronizado de atendimento. Nesse cenário, as drogarias tradicionais tendem a explorar os marketplaces como canal adicional de demanda, mediante acordos que preservem margem e dados de relacionamento com o cliente.
O debate entre “loja física versus aplicativo” perde força e dá lugar a uma competição entre ecossistemas híbridos. Plataformas digitais buscam diversidade de estoque, enquanto redes farmacêuticas aceleram programas de fidelidade, teleatendimento e click & collect. A convergência desses movimentos sugere um modelo de receita compartilhada, no qual conveniência, preço e disponibilidade são as variáveis determinantes.
Modelagem financeira e pressão competitiva
A introdução de medicamentos nos aplicativos pode elevar a penetração do e-commerce farmacêutico dos atuais 9 % para até 18 % do faturamento setorial em cinco anos, de acordo com estimativas de consultorias independentes. Para o iFood, cada ponto percentual adicional representaria acréscimo potencial de R$ 1,3 bilhão em volume bruto de mercadorias (GMV). Já as grandes redes, que historicamente exibem margem Ebitda entre 7 % e 9 %, avaliam se as comissões cobradas pelos marketplaces podem ser compensadas pelo ganho de escala e pela redução de custos de aquisição de clientes.
Reguladores reforçam que a responsabilidade técnica permanece com o farmacêutico no ponto de origem. Exigências de controle de temperatura, rastreabilidade e verificação de receita eletrônica continuam inalteradas. Qualquer descumprimento acarreta sanções administrativas às farmácias e, subsidiariamente, às plataformas que falharem na governança dos parceiros.
Conclusão técnica
A revogação da proibição imposta em 2022 removeu o principal entrave regulatório para a venda de medicamentos por marketplaces, abrindo caminho para um cenário de competição centrada em logística, tráfego qualificado e profundidade de sortimento. iFood larga com vantagem operacional pela malha de entregadores e frequência de uso do aplicativo, enquanto Shopee e Mercado Livre exploram seus ecossistemas de vendedores e infraestrutura de distribuição. Do outro lado, redes como Raia Drogasil mantêm diferenciais em estoque, dados de consumidor e capilaridade física. Nos próximos trimestres, a performance de cada ecossistema dependerá da capacidade de equilibrar comissões, investimento em tecnologia de estoque em tempo real e conformidade sanitária, definindo os limites de participação de mercado de cada agente no varejo farmacêutico brasileiro.




