Morte de mãe e bebê em Indaial: demissão de médico amplia investigação por possível negligência

A demissão de um dos profissionais que atenderam a gestante Maria Luiza Bogo Lopes, 18 anos, no Hospital Beatriz Ramos (HBR), em Indaial (SC), tornou-se um novo elemento no inquérito que apura as circunstâncias da morte da mãe e da filha, ocorrida em 2 de abril, após quatro buscas consecutivas por atendimento médico.

Sequência dos atendimentos e agravamento do quadro clínico

Entre 29 de março e 1.º de abril, Maria Luiza, grávida de 28 semanas, compareceu ao Pronto-Atendimento do HBR em quatro ocasiões consecutivas. Os registros familiares indicam sintomas persistentes de febre, mialgia, vômitos e manchas cutâneas. Em todas as visitas, a paciente recebeu medicação sintomática e foi liberada para retornar ao domicílio.

No quinto dia, 2 de abril, a jovem desmaiou em uma Unidade Básica de Saúde. Nessa data, foi encaminhada em estado crítico ao Hospital Santo Antônio (HSA), em Blumenau, onde passou por cesariana de emergência. A recém-nascida chegou sem batimentos cardíacos, e a mãe faleceu poucas horas depois.

Resultado oficial do óbito e hipóteses médicas

O atestado de óbito atribuiu a morte a Síndrome HELLP, Descolamento Prematuro de Placenta e Coagulação Intravascular Disseminada. Essas condições são consideradas complicações graves da gestação, geralmente associadas a pré–eclâmpsia. A literatura obstétrica descreve a Síndrome HELLP como um quadro que combina hemólise, elevação de enzimas hepáticas e plaquetopenia, exigindo diagnóstico rápido e intervenção imediata para reduzir a mortalidade materno-fetal.

Segundo especialistas que não participam do caso, a evolução descrita — febre, dores difusas e sinais cutâneos — pode mascarar a manifestação inicial da síndrome, mas a repetição das queixas costuma justificar exames laboratoriais de análise hepática e contagem plaquetária, normalmente disponíveis em hospitais de médio porte.

Demissão de profissional e avanços do inquérito policial

O Hospital Beatriz Ramos confirmou a demissão de um dos médicos envolvidos no atendimento, sem informar data exata ou justificativa administrativa. A direção declarou colaborar com as autoridades e manter sindicância interna, mas não detalhou eventuais falhas de protocolo.

O inquérito, conduzido pela Delegacia de Polícia Civil de Indaial sob supervisão técnica, permanece em sigilo. De acordo com o delegado Aderlan Camargo, a análise concentra-se nas condutas adotadas durante cada passagem da paciente pelo hospital, comparando anotações de prontuário, tempo de observação e decisão de alta. Exames laboratoriais, laudos anatomopatológicos e registros de enfermagem também integram o dossiê.

Peritos avaliam se a demora no reconhecimento da síndrome reduziu a janela terapêutica habitual — que envolve estabilização hemodinâmica, avaliação de viabilidade fetal e, em muitos casos, antecipação do parto para salvar a mãe.

Implicações legais e administrativas para a instituição e os profissionais

Na esfera criminal, eventual comprovação de negligência, imperícia ou imprudência pode levar a enquadramento por homicídio culposo, previsto no artigo 121 §3.º do Código Penal, com pena de um a três anos, agravada se houver descumprimento de dever profissional.

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Paralelamente, o Conselho Regional de Medicina de Santa Catarina (CRM-SC) pode instaurar processo ético-disciplinar. Sanções variam de advertência confidencial a cassação do exercício profissional, dependendo da gravidade das infrações ao Código de Ética Médica.

O hospital, por sua vez, está sujeito a responsabilização cível por danos morais e materiais, além de fiscalizações da Vigilância Sanitária e do Ministério Público, que podem determinar ajustes nos protocolos de triagem obstétrica e no dimensionamento de plantões.

Contexto regional e precedentes clínicos

A mortalidade materna em Santa Catarina registrou índice de 34,2 óbitos por 100 mil nascidos vivos em 2023, segundo dados preliminares da Secretaria de Estado da Saúde. Embora inferior à média nacional (57,4), o número permanece acima da meta da Organização Mundial da Saúde, que recomenda 30 ou menos.

Precedentes recentes no Vale do Itajaí indicam que hemorragias obstétricas e hipertensão gestacional figuram entre as principais causas de morte materna na região. Casos envolvendo Síndrome HELLP representam cerca de 12 % dos registros, reforçando a necessidade de diagnóstico precoce.

Conclusão técnica e próximos passos

Com a demissão do profissional e a manutenção do inquérito em sigilo, o caso entra na fase de cruzamento de prontuários, depoimentos e laudos periciais. O delegado responsável deve encaminhar o relatório final ao Ministério Público após a oitiva de todos os envolvidos e a avaliação de especialistas independentes. Paralelamente, o CRM-SC poderá determinar medidas cautelares, como suspensão temporária do exercício médico, caso identifique indícios robustos de infração ética.

Enquanto aguardam-se as conclusões, a unidade hospitalar revisa seus protocolos de classificação de risco e a disponibilidade de exames laboratoriais emergenciais para gestantes. O resultado oficial do inquérito definirá eventuais denúncias criminais, processos cíveis de indenização e sanções administrativas, estabelecendo parâmetros para futuras práticas assistenciais na rede hospitalar catarinense.