Acidentes de trabalho custam R$ 5 bilhões por ano a Santa Catarina e colocam o estado na 5ª posição nacional

Santa Catarina registrou alta de 10 % nos acidentes de trabalho entre 2022 e 2023, alcançando o 5º lugar no ranking nacional e gerando um desembolso superior a R$ 5 bilhões em benefícios previdenciários na última década, segundo dados do Programa Trabalho Seguro e do Anuário Estatístico da Previdência Social.

Escalada dos acidentes e impacto econômico direto

Embora ocupe a 6ª colocação no Produto Interno Bruto entre as unidades federativas, Santa Catarina ultrapassa esse posto quando o indicador é o volume de registros de acidentes laborais, consolidando-se na 5ª posição nacional. Entre 2012 e 2022, o estado acumulou aproximadamente 72 milhões de dias de trabalho perdidos, o que pressionou a arrecadação pública e a produtividade industrial.

Em valores nominais, a Previdência Social repassou mais de R$ 5 bilhões em benefícios relacionados a acidentes típicos, de trajeto e doenças ocupacionais no período. Tal montante representa cerca de 4 % do PIB estadual médio anual quando considerada a década em análise. O reflexo ultrapassa fronteiras locais: no Brasil, as perdas somam R$ 468 bilhões, ou 4 % do PIB nacional, conforme estimativas do Tribunal Superior do Trabalho.

Analfabetismo funcional como barreira invisível

Especialistas em segurança do trabalho apontam que normas, Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) e treinamentos periódicos não têm sido suficientes para conter a progressão dos acidentes. Alessandra Leoni, fundadora da Vibro Humaniza, destaca o analfabetismo funcional como fator crítico. O Indicador de Alfabetismo Funcional revela que 25 % dos trabalhadores brasileiros não interpretam corretamente textos simples nem executam cálculos básicos.

De acordo com Leoni, cerca de 13,6 % dos sinistros envolvem a operação de máquinas pesadas. Nessas ocorrências, a não assimilação de procedimentos escritos contribui decisivamente para o erro operacional. “O desafio é traduzir a norma para uma linguagem que o público operacional compreenda e consiga aplicar sob pressão”, resume a especialista.

Perfis de ocorrência e setores mais afetados

O Anuário Estatístico da Previdência Social classifica os registros catarinenses em três frentes principais:

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Imagem: José Paulo Lacerda

  • Acidentes típicos – eventos durante a execução direta das tarefas;
  • Acidentes de trajeto – sinistros no percurso entre residência e local de trabalho;
  • Doenças do trabalho – enfermidades agravadas pelas condições ambientais.

Os alimentadores de linhas de produção encabeçam o ranking de ocupações lesionadas, refletindo o parque fabril do estado. Em seguida aparecem motoristas de caminhão e serventes de obras, categorias que somam milhares de CATs (Comunicações de Acidente de Trabalho) emitidas anualmente. O perfil de vítimas indica predominância do sexo masculino, idade média entre 25 e 39 anos e vínculo formal de emprego.

Metodologias de prevenção baseadas em dados humanos

Para reduzir estatísticas e custos, novas abordagens unem análises quantitativas de SST a levantamentos qualitativos sobre fadiga, estresse e assédio. O objetivo é mapear fatores comportamentais que não aparecem em formulários tradicionais. Segundo Leoni, empresas que combinam indicadores técnicos com pesquisas de clima conseguem estruturar treinamentos sob medida, maximizando a retenção de conteúdo entre operadores.

Programas-piloto em indústrias catarinenses monitoram horas de sono, rotatividade de turnos e carga cognitiva. Tais variáveis são cruzadas com registros de quase acidentes e inspeções de rotina, originando matrizes de risco mais fiéis à realidade fabril. Resultados preliminares apontam redução de até 18 % nas ocorrências em plantas que adotaram o modelo durante 12 meses consecutivos.

Conclusão técnica

Os números confirmam que Santa Catarina enfrenta um desafio estrutural na segurança do trabalho, com repercussões financeiras que superam R$ 5 bilhões em uma década. A persistência do analfabetismo funcional, somada à complexidade das operações industriais e logísticas, eleva o risco de sinistros e dias improdutivos. Iniciativas que integrem dados comportamentais a métricas tradicionais de SST tendem a ganhar tração, pois oferecem diagnósticos avançados e treinamentos direcionados. Observa-se, portanto, um movimento de empresas e entidades de classe em busca de soluções que traduzam normas em práticas assimiláveis, etapa considerada decisiva para conter a evolução das estatísticas nos próximos ciclos econômicos.